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Arquivo : novembro 2014

A boa notícia na manga de Dilma: desmatamento cai 18% em 2014
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Gustavo Faleiros

Realmente surpreende a taxa oficial de desmatamento na Amazônia divulgada nesta tarde de quarta (26) em Brasília pela ministra do Meio Ambiente, Izabela Teixeira. O total de áreas desflorestadas com corte raso, medidas pelo Programa de Monitoramento da Amazônia por Satélites (PRODES), apresentou uma queda de 17,7% entre agosto de 2013 e julho de 2014 em comparação com o mesmo período anterior.

A notícia já havia sido adiantada durante as eleições pela presidente Dilma que, em resposta às críticas ao crescimento de 29% em 2013, afirmou que haveria queda neste ano.

Twiiter de Dilma no dia 19 outubro adiantou que haveria queda na divugação em novembro. Foto: Twtter/reprodução

No total, foram desmatados 4848 quilômetros quadrados (km2) contra 5891 km2 no ano passado. Esta é a segunda menor taxa desde o início da medição em 1988, acima apenas daquela divulgada no biênio 2011-2012, 4571 km2.

Veja série histórica abaixo:

Os dados, embora ainda passíveis de revisão pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), saem a poucos dias do início da Cúpula da ONU sobre Mudanças Climática – a COP20, que ocorrerá em Lima.

Ali, o Brasil poderá continuar argumentando que, ao evitar o desmatamento, é um dos países que mais contribui para a redução das emissões de gases de efeito estufa.

A surpresa aos números oficiais do desmatamento se deve à tendência de aumento no número de alertas de desmatamento, tanto aqueles medidos pelo governo – através do Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter) – como os da ONG Imazon – calculados pelo Sistema de Alertas de Desmatamento (SAD).

Muitos analistas ao observarem o aumento de cerca de 9% em ambos sistemas de alertas entre os meses de agosto de 2013 e julho de 2014, apostaram que haveria uma elevação na taxa oficial de desmatamento pelo segundo ano consecutivo.

Este blog, por exemplo, em post anterior arriscou um palpite de elevação de entre 7% e 8% utilizando a diferença média entre o Prodes e o Deter desde 2005. Erramos.

Tentando entender a razão, enviamos um email ao pesquisador Dalton Valeriano, do INPE, que nos respondeu com a seguinte explicação:

“O Deter geralmente tem a magnitude de taxa mais alta do que o Prodes e quando a magnitude é alta, digamos maior que 20%, o Deter prediz corretamente o sinal da taxa do Prodes. Ele errou em um ano quando sua magnitude foi de 17% de aumento e o Prodes deu diminuição. No ano de 2014, o Deter teve uma taxa de 9% de aumento, valor perigosamente baixo para predizer uma tendência do Prodes.”

O que Valeriano elucida pode ser visto no gráfico abaixo: os únicos anos em que o Deter subiu enquanto o Prodes caiu foram os 2011 e, agora, 2014.

Ou seja, reforça o argumento do governo de que os alertas de desmatamento nem sempre devem ser lidos como tendência.

A presidente Dilma não blefou quando antecipou a queda, pois, além da informação do INPE, sabia que o Ibama acelera a fiscalização nas principais áreas de pressão – BR 163 no Pará e Mato Grosso. A eficácia dos fiscais foi o fator mais destacado pela ministra hoje na coletiva de imprensa.

“Houve muita fiscalização – cada vez mais intensa e melhor”, analisa o pesquisador senior do Imazon Beto Veríssimo. No entanto, ele faz a ressalva:

“Essa queda é em relação a 2012-2013 quando o desmatamento total pelo Prodes foi cerca de 5,8 mil km2, mas é bom lembrar que ainda estamos acima do desmatamento 2011-2012 que foi cerca de 4,5 mil km2. Portanto, ainda não conseguimos reverter a taxa ao que havíamos obtido 2011-2012”.

A questão que fica diz respeito já sobre a nova temporada de contagem do desmatamento. O goveno não divulgou ainda os dados do Deter de agosto a outubro. Mas o Imazon sim.

“Os dados do SAD que mostram aumento de 226% se referem ao período de agosto -outubro 2014 e, portanto, nova estação de desmatamento. Os dados do Prodes divulgados são retrovisor”, pondera Beto Veríssimo.

Os dados do governo e do Imazon podem ser comparados no mapa abaixo


Desmatamento sobe 889% no Mato Grosso. Efeito eleições ou código florestal?
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Gustavo Faleiros

A cara da degradação: floresta vai raleando com retirada de madeira e queimadas. No Mato Grosso, segundo o Imazon, a degradação subiu 1000% em outubro. Esta foto foi feita há um mês durante validação de campo dos dados de satélite em São Felix do Xingu (PA). Fonte: INPE

A cara da degradação: floresta vai raleando com retirada de madeira e queimadas. No Mato Grosso, segundo o Imazon, a degradação subiu 1000% em outubro. Esta foto foi feita em outubro passado em uma validação de campo dos dados de satélite em São Felix do Xingu (PA). Fonte: INPE

O Ibama diz que há mais fiscais em campo. Ruralistas, governo federal e estados afirmam que as novas regras de regularização de propriedades rurais, instaladas pelo novo Código Florestal, avançam. A presidente Dilma vai a ONU e diz que somos o país que mais faz para proteger as florestas tropicais.

Tudo soa bonito, mas as imagens de satélite mostram o contrário. Divulgados na segunda (17), os novos dados do Instituto do Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) referentes ao mês de outubro apontam 244 km2 desmatados contra 43 km2 no mesmo período do ano passado, 467% de aumento.

Somada aos dois meses anteriores, pois a contagem se faz de agosto de um ano a julho do ano seguinte, a taxa de desmatamento eleva-se a 1082 km2, crescimento de 226% comparados aos mesmos meses de 2013. Ou seja, falar em aumento pontual não é possível

O quê mais chamou atenção no boletim do Imazon é aumento explosivo do desmatamento no Mato Grosso. De agosto a outubro, o crescimento foi de 886%. E detalhe importante: a degradação florestal, prática de fogo ou retirada seletiva de madeira que prenuncia o corte raso, subiu 1000% no estado.

Beto Veríssimo, pesquisador sênior do Imazon, analisou os dados referentes ao Mato Grosso como uma tendência consistente de alta:

“Revelam que a pressão para o desmatamento vai continuar, pois as florestas degradadas (isto é, aquelas florestas onde houve exploração ilegal de madeira e ou fogo florestal) são candidatas a serem desmatadas. O desmatamento no Mato Grosso mostra também que agora temos desmatamento para expansão de área para uso agropecuário. Antes predominava o desmatamento especulativo.”

Depois de anos ganhando elogios por ter reduzido a ilegalidade, o Mato Grosso parece estar voltando ao posto de campeão do desmatamento. Por que? Uma das explicações poderia ser o ano de eleições, onde historicamente se vê um aumento das derrubadas, pois se supõem impopulares as ações de fiscalização.

Por outro lado, se, como afirma o Imazon, a conversão ocorre para uso agropecuário, os mecanismos do Código Florestal estão claramente sendo subvertidos. O sistema que se criou está falhando – com o Cadastro Ambiental Rural (para responsabilizar o dono da terra), o licenciamento estadual ( para autorizar desmates dentro da lei) e os documentos de origem florestal (para monitorar a legalidade da madeira).

Alguma coisa não funciona e o Ministério do Meio Ambiente, o Ibama ou órgãos estaduais responsáveis pelo controle florestal dizem pouco ou quase nada. Procurados pela imprensa apenas avisaram que não comentam os dados do Imazon.

Bem, o Imazon é uma das organização não governamentais mais conceituadas no país. Sua metodologia de análise de imagem de satélite – o Sistema de Alertas de Desmatamento (SAD) – existe desde 2007 e mais recentemente passou a ser replicada em outros países da bacia amazônica. As detecções de alteração na cobertura florestal são processadas em parceria com o Google, que disponibiliza seus potentes servidores para acelerar o processo.

Por que a dificuldade do Ibama e Ministério do Meio Ambiente em debater abertamente a volta do desmatamento? O palpite é de que a transição para o novo Cadastro Ambiental Rural (CAR) dificulta a responsabilização do proprietário do imóvel rural. O prazo final para o CAR, se não for extendido pelos ruralistas com conivência do executivo, é maio de 2015,

Na última coletiva de imprensa no dia 07 de outubro, o IBAMA falou em cerco ao “crime do desmatamento”. Talvez o órgão esteja mesmo empenhado em reverter a tendência de alta, como mostraram recentes operações realizadas no Pará.
Ali, elas parecem ter surtido efeito. Mas Beto Veríssimo, do Imazon, lembra que região ainda é um dos principais focos de desmatamento

“Diminuiu o impeto do desmatamento na BR-163, em Novo Progresso (PA). Pelo menos em outubro. Isso pode ser resultado das operações de fiscalização mais intensas nessa área, houve prisão dos lideres do desmatamento. Mas é ainda cedo para comemorar

Se as derrubadas crescem no Mato Grosso, devemos supor que as ações de fiscalização ocorrem neste momento ali ou ainda ocorrerão. Que os proprietários que desmataram sem licenciamento do estado serão punidos. Ou aqueles que degradaram floresta para retirar madeira ou com queimadas ilegais serão identificados. Ou ainda quem compra boi ou grãos de terras previamente florestadas sofrerão sanções.

Para que a sociedade possa acompanhar se isto vai mesmo acontecer, seria ao menos saudável que estivessem disponíveis as informações sobre autos de infração, áreas embargadas e, claro, os alertas de desmatamento em “TEMPO REAL”, que agora, oficialmente atrasados, são divulgados por IBAMA e INPE a cada 3 meses.

Mapa do desmatamento

Os dados dos 3 últimos meses, assim como toda a série histórica do Imazon estão atualizadas no mapa abaixo. É possível ainda comparar com os dados do governo federal acionando os comandos no canto inferior esquerdo. Neste zoom alguns dos principais focos recentes de desmatamento em municípios de Rondônia (Porto Velho) e Mato Grosso (Colniza). Visite o InfoAmazonia.org para saber mais.


Culpando “criminosos”, IBAMA oficializa restrição a dados do desmatamento
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Gustavo Faleiros

Zanardi, presidente do Ibama, explica as mudanças na divulgação de dados, ao lado diretor do Inpe, Leonel Perondi (em primeiro plano) . Foto: Ibama/divulgação

Nada nem ninguém conseguiu ainda explicar o que se passou na última sexta-feira (7) à tarde em Brasília. O presidente do IBAMA e o diretor do INPE convocaram a imprensa para oficialmente anunciarem a mudança no calendário de divulgação dos dados do sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (DETER) e justificaram a decisão dizendo que, ao reduzirem o acesso à informação, dificultam a vida dos “criminosos” na Amazônia.

“Para impedir a utilização das informações georreferenciadas pelos desmatadores um protocolo específico de divulgação das informações foi estabelecido entre Ibama e INPE. Assim, os criminosos não conseguirão saber onde estão situados os possíveis focos de desmatamento identificados pelo sistema. “E os fiscais que atuam na ponta também estarão mais protegidos”, explicou o presidente do Ibama, Volney Zanardi Júnior, em notícia publicada pelo órgão em sua na página na internet.

Se lido ao pé da letra, o trecho acima não faz o menor sentido. Os criminosos “não conseguirão saber” onde estão os focos de desmatamento? Mas eles já sabem onde estão. Eles mesmo são os focos! Estão ali, cortando, derrubando, queimando, grilando, passando o correntão etc etc etc .

É como se a polícia de São Paulo deixasse de publicar os dados de homicídio, furtos e roubos explicando que essa informação, se disponível ao público, facilitaria o trabalho dos bandidos. Ou se o Banco Central deixasse de divulgar os dados de inflação e juros com temor que isso poderia beneficiar os agiotas na praça.

Não há outra forma de classificar essa decisão: retrocesso. Um grande retrocesso. O Brasil estava na frente ao criar e disponibilizar um sistema de alerta de desmatamento baseados em imagens de satélites diárias.

O DETER servia como um termômetro do desmatamento. Se ele apontava para cima, a taxa oficial – medida pelo Projeto de Monitoramento da Floresta Amazônica por Satélites – PRODES, geralmente divulgada no fim do ano, confirmava a tendência. O DETER era um instrumento de transparência, assim como são outros indicadores – a inflação, a produção industrial, o emprego.

Na coletiva de imprensa da última sexta, porém, o diretor do INPE, Leonel Fernando Perondi, deixou claro: “Os números do Deter são alertas e não se relacionam com a taxa anual de desmatamento do Prodes”.

Não se relacionam? Vejam as duas linhas abaixo. As linhas têm correlação clara de julho de 2005 até julho de 2014 (último mês em que os dados foram divulgados). Notem que incluimos uma projeção de aumento para o PRODES em 2014.

Comparando ano a ano, é possível calcular que a média de diferença percentual entre o DETER e o PRODES é de 47,8%.  Ou seja, este último registra uma quantidade de áreas desmatadas de fato maior que o primeiro, mas essa diferença tem sido razoalvemente estável ao longo dos anos. A tomar como base os ciclos bianuais do desmatamento, ou seja 12 meses contados a partir de agosto de cada ano, vimos que em 2013/2014, o aumento de 9,8% no DETER comparados ao mesmo período anterior, ou total de 3035 km2. Se o padrão se mantiver, haverá aumento na taxa oficial de desmatamento, elevando de 5891 Km2 para 6349 km2, ou seja  7,7% de elevação.

Daqui para frente

Agora, ao invés da divulgação mensal dos dados como ocorria desde 2008, a publicação ocorrerá apenas em meses selecionados: fevereiro, maio, agosto e novembro.

Em teoria, ao não encontrarem mais os dados, os madeireros, grileiros, roceiros, pecuaristas e outros potenciais desmatadores serão pegos de surpresa, autuados e multados pela equipe de fiscalização do Ibama. Pode-se supor então que a intenção é impedir que os criminosos saibam que o governo está sabendo.

Mas será mesmo que o problema é o acesso à informação por cidadãos mal intencionados? Os últimos dados do Deter se referem a julho deste ano e já apontavam uma tendência de alta no início do período seco na Amazônia, quando as derrubadas normalmente se aceleram. O silêncio desde então não impediu uma alta de 122% no total de hectares derrubados em agosto e setembro, segundo números vazados à Folha de S. Paulo (que aliás continuam ocultos ao público).

Se a fiscalização do Ibama autuou ou embargou áreas neste período, também não é possível saber. Pois desde 2012 o órgão parou de divulgar na internet o balanço destes dois itens. Outro detalhe, relatórios gerenciais que eram publicados com frequência anual também estão atrasados.

Ao optar por explicar a redução ao acesso aos dados com um argumento policialesco, o Ibama e o INPE levantam dúvidas sobre a decisão. Ela serve mais para proteger aos chefes no Ministério do Meio Ambiente e no Palácio do Planalto do calor político que causa a destruição da Amazônia . Se subiu ou desceu a cada mês, não importa, o que vale é esperar a taxa “oficial” de desmatamento, anunciada apenas uma vez por ano.

InfoAmazonia

Desde o início do projeto InfoAmazonia há dois anos e meio, nosso objetivo tem sido proporcionar informação de qualidade para facilitar o acompanhamento do público sobre a floresta amazônica. Nosso mapa de desmatamento conta com dados do Deter atualizados sempre que estes são divulgados. Para contornar a divulgação irregular pelo governo de novos dados,  temos utilizado as informações geradas pelo Sistema de Alertas do Desmatamento (SAD), monitoramento independente feito pela ONG Imazon. No mapa abaixo é possível visualizar polígonos de desmatamento até setembro de 2014

 


Para salvar a Amazônia, cientista brasileiro declara guerra à ignorância
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Thiago Medaglia

Desmatamento zero e imediato é só a primeira medida a ser tomada, afirma Nobre

Desmatamento zero e imediato é só a primeira medida a ser tomada, afirma Nobre. Foto: Ibama

 

Pesquisador brasileiro apresenta compilação inédita de estudos e fala em unir esforços, mas o que você tem a ver com isso?


por Thiago Medaglia

Indignada, uma colega jornalista senta-se ao meu lado e comenta em voz baixa: “acabo de ver a repórter de uma emissora americana ir embora! Disse que não havia notícia aqui e partiu”. No auditório à nossa frente, pela primeira vez, um cientista brasileiro dedica-se a reunir em um relatório as conclusões de duzentos dos mais relevantes estudos e artigos científicos produzidos no país sobre o papel da floresta Amazônica no sistema climático.

Questões como a regulação das chuvas e a exportação de serviços ambientais para áreas vizinhas ou distantes da Amazônia foram analisadas. A conclusão: não basta reduzir a zero o desmatamento. Além de manter a floresta existente em pé (algo que já não acontece), é necessário confrontar o passivo do desmatamento acumulado (algo que nunca aconteceu). Em outras palavras, para permitir que a principal faixa tropical do planeta continue a exercer sua função de reguladora do clima é preciso cessar imediatamente com o corte de árvores e replantar parte da cobertura vegetal perdida.

A avaliação foi apresentada pelo autor da compilação, o pesquisador Antonio Nobre, do Centro de Ciências do Sistema Terrestre do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em um encontro na zona oeste da cidade de São Paulo na quinta-feira, 30 de outubro. “A ciência é muito fragmentada”, diz Nobre, “por isso, decidimos compilar resultados de diversas áreas e agregá-los em um relatório feito para leigos”. O trabalho foi executado a pedido da Articulación Regional Amazónica (ARA), uma rede composta por organizações de vários países da região, entre eles o Brasil.

Talvez o fato de que as informações ali debatidas já haviam sido divulgadas anteriormente de maneira difusa tenha motivado o comentário da jornalista americana. Afinal, é comum associar a busca de notícias a fatos novos e há veículos de imprensa mais voltados ao hard news (dedicado à atualização contínua dos acontecimentos) do que outros – não há nada de errado nisso. No entanto, há cada vez mais espaço para uma mídia capaz de aprofundar as discussões. Bem rápido, as coisas estão mudando – no planeta e no jornalismo.

Mas vamos retomar o foco na explanação do cientista. Durante sua fala, Antonio Nobre destaca que, entre outras funções naturais, “a Amazônia cumpre o papel de ‘bomba d’água biótica’” – ou seja, o “oceano verde” da floresta tropical capta a umidade do oceano Atlântico, que é bombeada para o interior da América do Sul. Desprovida de sua cobertura original, a grande floresta já dá indícios de falhar no generoso papel de disseminadora da umidade.

A atual seca no Sudeste, segundo Nobre, está sendo avaliada por diversos pesquisadores e “embora seja cedo para afirmar, não podemos descartar a relação com o cenário ao Norte”. Uma das principais consequências da degradação florestal é a irregularidade na ocorrência de chuvas no próprio bioma e em outras zonas do continente. Por meio de rios aéreos de vapor, a Amazônia exporta umidade e ajuda a irrigar áreas de Sudeste, Centro-Oeste e Sul do Brasil, além de países como Bolívia, Paraguai e Argentina. “Sem os serviços da floresta, porções do continente que hoje são produtivas podem desenvolver um clima inóspito, quase desértico”. E complementa: “Se os paulistas querem garantir que a chuva retorne e permaneça, devem replantar a mata Atlântica e preservar a Amazônia”.


Uma nova percepção
A compilação multidisciplinar promovida por Nobre ajuda a evidenciar, também, nuances ainda pouco conhecidas da imensidão amazônica. Uma das peculiaridades apontadas é que a floresta, além de manter o ar úmido, favorece a formação de chuvas em ar limpo. “Até pouco tempo atrás não sabíamos disso, mas o fato é que as árvores emitem aromas a partir dos quais se formam sementes de condensação do vapor d’água”. Em contato com os núcleos das nuvens, esses aromas impulsionam as chuvas fartas (e eu só consigo pensar que há poesia de sobra na ciência).

Acontece que a competência em regular o clima se dá, principalmente, pela capacidade inata das árvores em transferir grandes volumes de água do solo para a atmosfera por meio da transpiração: na Amazônia, são 20 trilhões de litros de água transpirados ao dia (para se ter uma ideia, o rio Amazonas, o mais volumoso do mundo, despeja 17 trilhões de litros de água diariamente no oceano Atlântico). Só que o desmatamento coloca em risco todos esses atributos.

A redução drástica na transpiração, a modificação na dinâmica das nuvens e das chuvas e o prolongamento da estação seca nas zonas desmatadas são efeitos já previstos em modelos científicos e confirmados por observações. A floresta, formada há 400 milhões de anos, tem grande capacidade de resistir a cataclismos climáticos, entretanto, quando atingida por motosserras, tratores e incêndios artificiais, sua imunidade natural é quebrada. O gigante é vulnerável.

De acordo com cálculos do próprio Nobre, a ocupação da Amazônia já destruiu 42 milhões de árvores, ou seja, mais de 2.000 árvores por minuto – sem intervalos – nos últimos 40 anos.

“Precisamos de um esforço de guerra”, diz Antonio Nobre. E continua: “Durante a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos interromperam a produção de carros populares para concentrar esforços na indústria bélica. É desse tipo de mobilização que precisamos para conter o desmatamento e suas consequências drásticas”.


E o que pressupõe o esforço conjunto sugerido por Nobre?
Entre outras ações: desmatamento zero já, a abolição de fogo, fumaça e fuligem (veja no mapa ao final do texto) e uma guerra contra a ignorância. Eis a parte mais difícil: de que maneira mobilizar a sociedade para um posicionamento firme contra o desmatamento?

Para alguns cientistas, o momento que vivemos hoje representa sistemas em colisão. Os sistemas humanos de infraestrutura (construção, energia, transporte, indústria e comércio) agridem a todo instante o funcionamento de sistemas naturais como os ciclos de nitrogênio e do carbono, a dispersão da umidade, a ocorrência ou não de precipitações e outros.

Há quem aposte que a tecnologia pode evitar o colapso ambiental e salvar a humanidade de seus próprios danos aos sistemas naturais. O grande problema é que as forças econômicas em jogo não favorecem revoluções tecnológicas a longo prazo. A lógica do crescimento econômico não poupa os recursos do planeta. A natureza pode minguar e milhões de vidas humanas podem ser perdidas, mas as pessoas resistem em modificar seus hábitos. A pauta ambiental, por exemplo, não foi tema em nenhum dos recentes debates políticos entre os candidatos à presidência do Brasil. Por que?

Para além do discurso de alienação política ou da falta de sintonia perceptiva, outro pesquisador, o psicólogo americano Daniel Goleman, aponta uma dificuldade, digamos, evolutiva: o aparato de percepção do nosso cérebro tem um ajuste fino para sorrisos e expressões de irritação, bebês, trovoadas e rosnados de animais perigosos (focos que foram úteis à sobrevivência da espécie: diante de um risco eminente, por exemplo, nosso cérebro libera hormônios como a adrenalina e nos preparamos para bater ou correr).

Entretanto, Goleman afirma seu livro mais recente (Foco, Editora Objetiva),  “não temos qualquer radar neural para as ameaças ao sistema global que suporta a vida humana. São questões macro ou micro demais para que nós as percebamos diretamente” – como o pó mágico das árvores que estimula as chuvas ou a colossal transpiração da Amazônia. “Assim, quando confrontados com essas ameaças globais, nossos circuitos de atenção tendem a dar de ombros.”

O esforço de guerra, portanto, começa por superar em si uma maneira intrínseca de ver o mundo como um oásis de recursos inesgotáveis. É chegada a hora de conectar pontos menos evidentes à primeira vista e desenvolver um modelo de pensamento sistêmico, onde a complexidade dos eventos ao nosso redor é levada em conta.

Do contrário, incorremos no risco de não enxergar a notícia ou de agir como um pecuarista mencionado pelo jornalista André Trigueiro nas redes sociais no último fim-de-semana: o homem culpava a seca pela morte de 800 cabeças de gado – atrás dele, uma paisagem de morros desmatados para virar pasto.


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